quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Crónicas de Nárnia: o Enfermeiro, o Guarda-roupa e a Noite Fria.


De cada vez que me preparo para entrar ao serviço ás 23h, sinto uma alegria inexplicável. É qualquer coisa de muito agradável, saber que são 5 da tarde e a torrada parece que nem sabe a torrada porque daqui por umas horas vou trabalhar. Lá fora chove e faz frio, e eu tenho de tirar o meu pijama quentinho para me vestir. A camisola é o que custa mais. Enquanto a retiro rogo a triste sorte de ter de abandonar o lar quando os vizinhos estão provavelmente refastelados no sofá a ver um concurso em família. Coisas corriqueiras que talvez não me apetecessem mas como vou trabalhar sinto sempre que era o que mais me apetecia nesse momento. Coisas normais de um ser humano normal que tem um horário anormal. E sigo viagem. A roupa nem chega de facto a aquecer o corpo, porque quando já estou confortável nela, eis senão quando tenho de me despir outra vez para me fardar. Poucas devem ser a profissões que obrigam alguem a vestir e despir tanta vez, mas isso são outros 500. Só fico contente porque o sítio onde me troco está sempre quentinho, é climatizado, iluminado e acolhedor, além de que espaço não falta. E assim começa mais uma jornada de trabalho. Há que ganhar o pão, mesmo que seja pão duro. Já dizia o meu avô: Antes pão duro que pedras moles. De maneiras que ir fazer noite é uma questão de subsistência e a ser assim, que venham muitas noites. Para mim e para todos que as desejam.
The land of the crikes

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

coisas que são más de dia e mesmo más de noite


Não há quem aguente, por muitas folgas que tenha (embora não saiba o que isso é), certas e determinadas coisas que são más e ao fim ao cabo são más. E se de dia são más e toleráveis, de noite levam-nos a um sítio que nem sabiamos que existia dentro de nós. A saber:

- Tocar na campainha para informar que o soro (IG) não está a correr, e fazer isto quase entre uma gota e outra. Os frascos deveriam ter um rótulo grande onde se pudesse ler: SORO. NÃO TEM PROPRIEDADES CURATIVAS, NÃO FAZ A NOITE PASSAR MAIS RÁPIDO, NÃO TIRA AS DORES, NÃO CURA DEPRESSÕES E NÃO SUBSTITUI UM BITOQUE.

- Tocar na campainha e dizer que foi engano (olha, que coisa tão gira, parece uma campainha. ora vamos lá ver se funciona! (...) quem tocou?......oh, deve ter sido engano Srª Enfermeira.)

- Tocar na campainha para dizer que a luz do candeeiro lá de fora incomoda nos olhos, passa por entre as folgas do estore e incomoda.

- Tocar na campainha para pedir que se apanhe a tampa da garrafa de água, que até já nem tem água mas se quando se comprou tinha tampa, agora que já acabou vai com tampa.

- Tocar na campainha 47 segundos depois de sairmos da sala ou pior ainda, tocar na campainha quando estamos na sala. É de morrer.

- Tocar na campainha e dizer que talvez tivessemos deixado parte da SNG ainda lá dentro, a fazer impressão na garganta.

E ainda, tocar na campainha para não dizer absolutamente nada.


Não há, por vezes, muitas vezes, diria até bastantes vezes, paciência.


The land of the crikes

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Ditados


Enfº: Sr. Doutor, a utente da cama x pode fazer primperan? è que está nauseada.

Dr: Pode sim, vou prescrever, mas não se vá embora. Fique aqui enquanto eu prescrevo. Vou abrir aqui o sistema........ora vá.......diga lá então.

Enfº: Escreva "meto" e depois enter....agora selecione...não, não é metotrexato. Tem de eliminar no x, aí em cima á direita. Agora escreva outra vez e selecione metoclopramida. Agora coloque a dose. Tem de dar outro enter. E pode colocar o horário.

Dr.: e que horário?

Enfº: Talvez em SOS, para o caso de voltar a estar nauseada.

Dr: Ok.`

Enf: Certo.

E lá vem embora o Enf., que não sabe ao certo quantos minutos perdeu com isto, e que se repete dia após dia após dia. Isto deveria entrar como intervenção para que se pudesse registar no SAPE. O que de facto me inquieta é a seguinte questão: Mas quando é que aprendem esta tão básica tarefa?

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

efeitos secundários de não conseguir uma troca


não digas que tou stressado.

eu só preciso de uma troca!


domingo, 23 de novembro de 2008

Para trás e para Agora


As vezes dá-me para isto, para esta coisa das analogias, do tempo, da vida. Simplesmente dá-me para. e agora deu-me para entrar na memória e andar para trás e depois para o agora. E concluo, sem saber muito bem porque, que é diferente. Para trás vejo dias no trabalho mais ligeiros, mais tranquilos, com mais sorrisos. Vejo vontade e vejo sol. Vejo-nos em cafés após a manha, vejo-nos em lanches ou jantares, vejo-nos bem-dispostos, vejo-nos sem ser a correr, a fugirmos não sei de quê. No agora, vejo-nos dificilmente. Vejo o desejo de correr directamente para casa ao sair do trabalho. Vejo-nos cansados. Vejo-nos menos vezes.

às vezes dá-me para isto. Para estas coisas da constatação. às vezes.

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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Do que eu não gosto mesmo


Do que eu não gosto mesmo é de dias como o de hoje, um dia de trabalho do mais caótico. Não gosto. Se me permitem queixar:
1. Não gosto da falta de método na visita (vemos esta srª, pausa, pausa, outra srª, pausa, ainda a outra senhora, pausa...)
2. Não gosto da receber senhoras quando não tenho a unidade para lhes disponibilizar (Ora esta é a sua cama, mas a doente não está incluída, depois vai ter aqui este armário e tem esta mesa de cabeceira, por sinal cheia de tralha, mas é só por uns momentos...).
3. Não gosto que as coisas aconteçam todas ao mesmo tempo, não sei, fico baralhada (ora hoje, acode-se a uma lipotímia, enquanto de frente alguém vomita para a taça e no mesmo instante a utente ao lado se diz também nauseada.
4. Não gosto de me apresentar e logo de seguida acrescentar: "temos de tirar sangue, neste momento". Acho que corta o ambiente. Mas isto sou eu.
5. Não gosto de ver tudo em reboliço e ter de me virar em 2, acudindo a bacios e arrastadeiras e recipientes semelhantes.
6. Não gosto de ter esta sensação de ausencia de continuidade e de me parecer tão pouco o que fiz, nos poucos minutos que me cabem na passagem de turno.
7. Não gosto de arrastar mesas e cadeiras e camas e suportes sempre que acomodo uma senhora em pós-operatório. Acima de tudo, não gosto de o fazer 4 ou 5 vezes por dia, como que por desporto. Urge-me sempre bater com alguma parte do corpo em alguma parte do que é arrastado. E dói.
8. Não gosto do barulho e de ver toda a gente a correr, a querer, a pedir, a perguntar. Faz-me taquicardia. E não é bom.
9. Não gosto de almoçar em 7m. è a minha média (sem o café). È quase desumano o espaço onde me permitem almoçar (não usando o refeitório). Não gosto e está tudo a cair e não há espaço para por nada e toda a gente se levanta quando alguém quer a maça que se esqueceu no frigorífico.
10. Não gosto de ter estas coisas a passear na minha cabeça, quando já sai do serviço. Não gosto.
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